Exercício de literatura
Vou tentar uma velha tática para desbloquear a criatividade, usar noticias para criar contos. Não conto qual para não tirar a curiosidade, mas é antiga não procure nos jornais de hoje... Tirei de: Rio Antigo - Memórias.
Cruzando histórias que não se cruzaram.
Foi naquele dia que a sua vida mudou, tinha ele uns oito anos quando foi pego com um amigo vendendo um pesado presunto roubado, naquele tempo isso era errado, hoje ainda é, os homens da lei e da ordem pousaram para a fotografia da apreensão. O amigo era mais forte, mais velho, mais bronzeado e tinha o jeito cabisbaixo de quem sabe o que esperar da vida: nada. Os fiscais ao redor dos meninos, em seus trajes de trabalho estavam indignados, o fiscal da alfândega incomodado, o policial armado, mantinha o olhar perdido de quem entende e sente a dor dos meninos. O cão se escondeu só fazia o que sabia: farejar. Suas sombras contam que já passava do meio dia que o sol já buscava o poente, o fotógrafo não cruzou suas histórias com a dele, apenas fazia o que sabia: capturar imagens.- Aqui, preste atenção, a notícia deixa de ser e passa a não ser mais real, aqui exatamente que Fênix ganha asas... Há a notícia e há a abstração dela; a literatura, que coisa, isso não é o Fake, é a criação, tem diferença... - Assim que guardava o equipamento o menino de olhos de águia percebeu uma janela, uma oportunidade, o fiscal da alfândega curvou-se levemente, os fiscais da prefeitura relaxaram de suas poses, o menino percebeu e passando por trás do amigo fugiu, correu, correu, correu... Era franzino, ágil e rápido, se esgueirou pela rua, entre os transeuntes e os carros... Deixou tudo para trás, não soube que o amigo nem viu o lampejo ou ouviu o estampido, da arma do guarda que reagiu a fuga... Tombou inerte ao lado do presunto apreendido... O cão perdeu o menino já lá longe perto dos trilhos do bonde. O fotógrafo nada disso capturou, estava de costas explicou ao delegado. Uma notinha de pé de pagina informava que um perigoso ladrão havia sido morto na fuga e que seu perigoso comparsa estava solto, a polícia estava em seu encalce, a mãe não sabia nada de seu paradeiro, o pai estava colhendo café... O menino correu, nunca mais voltou, foi de cidade em cidade se cortava a grama ganhava um pão ou uma moeda, rachava lenha, ficava pouco tempo em cada lugar, se perguntavam seu nome dizia um qualquer, pois qualquer um servia, se perguntavam sua idade dizia que não sabia... Deixou filhos em alguns cantos, não voltava, nunca voltava, nada dessas vidas ele sabia... Foi naquele dia lindo que sua sorte mudou, que seu rumo se perdeu, nunca soube quem era, nunca parou para sentir medo ou para explicar nada. Hoje de seu só tem os pés rachados, uma camiseta velha, uma bermuda surrada, um boné muito antigo, dos seus oito anos, de sua vida nada lembra, nada sabe. As mãos cansadas trançam palha na aldeia dos Charruas, é quieto como foi a vida toda, mantém o hábito de cruzar as mãos em frente ao corpo, mantém o olhar desafiador, a cabeça reta, o corpo pronto para achar o poente. Posso tirar uma fotografia? Pode não, moça! Isso rouba a alma da gente, me disse uma vez. Não tirei é lógico a fotografia e só agora compreendo o pesar no seu olhar, não digo seu nome porque qualquer um serve, será que essa pequena história também rouba a alma?
Fernanda Blaya Figueiróa